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Amantes a sério

Foi numa tarde mal iluminada, numa hora em que o sol se escondia envergonhado atrás de umas nuvens carregadas. Ela deixou-se recolher num canto da baixa, dando liberdade ao seu corpo para a música se lhe dissolver em cada poro, penetrando cada partícula do seu ser. Sentiu tranquilidade e um familiar prazer. Agradeceu pela paz e pela companhia sonora que a distraía dos próprios pensamentos berrantes. Corria o rumor que o homem que morava debaixo do mesmo teto, com quem partilhava a cama, tinha uma amante. Uma amante a sério! Os dois roubavam-lhe inúmeros momentos de lucidez. Perguntava-se quantas vezes se teria deitado nos lençóis bordados pela mãe depois de todas as atrocidades praticadas entre a dita cuja e o homem que amava. O pensamento só por si causava-lhe náuseas. Não queria regressar àquelas paredes que lhe escondiam segredos desde o primeiro dia em que as mirou. Lembrou-se do primeiro encontro e do ar trocista que a enfeitiçara, o mesmo que não vira desde a primeira vez. De uma só vez, repentinamente, o silêncio ecoou pela rua. Nessa noite não dormiu. Desapareceu da vida dele, das paredes que a rodeavam... também ela tinha amantes, todos internos, todos sonhadores, todos dentro dela.

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